
A mais de 4.000 metros de altitude, o vento sopra constante entre as ericas gigantes e os lobélias arbóreas que crescem como torres vegetais ao longo das bordas do Platô Sanetti. Aqui, no coração do Parque Nacional das Montanhas Bale, na região de Oromia na Etiópia, se estende a maior área de habitat afroalpino de todo o continente africano. Não é uma paisagem que se assemelha a algo familiar: é algo radicalmente diferente, um planalto vulcânico onde a fauna endêmica seguiu caminhos evolutivos separados do resto do mundo.

O parque foi oficialmente estabelecido em 1970 e cobre uma área de cerca de 2.200 quilômetros quadrados, incluindo ecossistemas que vão das florestas de Harenna ao sul até os picos rochosos que superam os 4.300 metros. O ponto mais alto é o Monte Tullu Dimtu, a cerca de 4.377 metros acima do nível do mar, um dos picos mais elevados de toda a África oriental. Percorrer esses espaços significa atravessar faixas climáticas completamente diferentes em poucas horas de condução.
O lobo etíope: um encontro raro e real
O lobo etíope (Canis simensis) é o animal símbolo deste parque e um dos canídeos mais raros do mundo. A população global é estimada em menos de 500 indivíduos, e o Planalto Sanetti abriga uma das concentrações mais significativas. Avistá-lo não requer sorte extraordinária: nas primeiras horas da manhã, esses animais de pelagem vermelho-alaranjada patrulham as pradarias abertas em busca de sua refeição preferida, o rato-toupeira gigante etíope (Tachyoryctes macrocephalus), uma espécie endêmica que cava galerias visíveis como montículos no solo gramado.
Observar um lobo etíope caçando no planalto é uma experiência concreta e silenciosa: o animal se move lentamente, para, escuta, e então avança com precisão em direção a um ponto no solo. Os guias locais conhecem os territórios habituais das matilhas e podem orientar o itinerário de forma eficaz. É fundamental manter distância e não perturbar os movimentos: o parque aplica regras de observação da fauna que os guias fazem cumprir com atenção.
Um ecossistema vertical: da floresta ao afroalpino
Um dos aspectos mais surpreendentes do Parque Nacional das Montanhas Bale é sua estratificação ecológica. Descendo do plateau em direção ao sul, entra-se na Floresta de Harenna, uma das florestas pluviais de montanha mais bem preservadas do Chifre da África, onde vivem leopardos, colobis guereza e diversas espécies de aves endêmicas. Esse contraste em poucos quilômetros verticais torna o parque extraordinariamente rico do ponto de vista biológico.
Nas áreas úmidas e ao longo dos cursos d'água do parque, é possível avistar o nyala de montanha (Tragelaphus buxtoni), uma antílope endêmica da Etiópia com chifres espiralados e pelagem escura com listras brancas. O parque abriga também mais de 280 espécies de aves, incluindo numerosos endêmicos etíopes como o tordo da Abissínia e diversas espécies de rapinantes que sobrevoam as cristas com correntes ascendentes.
Como chegar e quando visitar
A base logística principal para visitar o parque é a cidade de Goba, acessível em cerca de 8 horas de ônibus de Addis Abeba ou de avião até Robe, o aeroporto mais próximo. De Goba, é possível organizar jipes com motorista e guias certificados através do escritório do parque. A estrada que sobe ao Platô Sanetti é uma das poucas estradas asfaltadas em alta altitude da África subsaariana, o que torna o platô acessível mesmo sem trilhas desafiadoras.
O melhor período para visitar é entre novembro e março, durante a estação seca, quando as estradas são transitáveis e a visibilidade no platô é ótima. Durante a estação das chuvas, entre junho e setembro, algumas áreas ficam lamacentas e difíceis de alcançar. É aconselhável levar roupas quentes mesmo no verão: à noite, as temperaturas no platô facilmente caem abaixo de zero, e mesmo durante o dia o vento pode ser cortante. A altitude pode causar mal de altitude: é prudente subir gradualmente e dedicar pelo menos um dia à aclimatação em Goba antes de alcançar altitudes mais elevadas.
Por que este lugar merece atenção
O Planalto Sanetti não é um destino de massa. A infraestrutura turística é limitada, os lodges disponíveis são poucos e as estradas de acesso exigem veículos adequados. Isso significa que quem chega até aqui muitas vezes se encontra sozinho diante de uma paisagem imensa, com o som do vento e a silhueta de um lobo etíope ao fundo. Não é um parque construído para o turismo: é um ecossistema que existe independentemente do olhar humano, e visitá-lo requer adaptação às suas condições, não o contrário.
O parque está incluído na lista de sites candidatos à inscrição como Patrimônio Mundial da UNESCO pelo seu valor natural excepcional. Apoiar a visita através das estruturas oficiais do parque contribui diretamente para os programas de conservação do lobo etíope e para a gestão do território pelas comunidades locais da região de Oromia.
