
A poucos metros sob as ruas de Valletta, escavadas na rocha calcária que constitui o coração da capital maltesa, se estende um labirinto de galerias que durante a Segunda Guerra Mundial abrigou um dos centros neurálgicos das operações militares aliadas no Mediterrâneo. As War Rooms Lascaris — conhecidas em italiano como Stanze di Guerra Lascaris — não são uma reconstrução museológica nem uma réplica: são os ambientes originais, com as mesas de rastreamento, os telefones, os mapas e os instrumentos de comunicação ainda em seus lugares, exatamente como os deixaram os oficiais aliados décadas atrás.

O complexo leva o nome do Bastione Lascaris, uma das poderosas estruturas defensivas construídas pelos Cavaleiros de São João no século XVII. Durante o conflito mundial, esses túneis tornaram-se a sede do Quartel-General Aliado para o Mediterrâneo, de onde foram coordenadas operações decisivas como a Operação Husky de 1943, o desembarque na Sicília que marcou uma virada na guerra na Europa. Desde 1943, o general Dwight D. Eisenhower e o almirante Andrew Cunningham operaram desses mesmos ambientes subterrâneos.
O que ver: as salas operativas originais

O elemento mais extraordinário das War Rooms é a sua autenticidade. Ao entrar nas galerias — a temperatura se mantém constante em torno de 18 graus mesmo no verão, tornando a visita agradável também nos meses mais quentes — o visitante se depara com salas operativas que parecem ter sido abandonadas ontem. As plotting tables, as grandes mesas onde as operadoras da WRNS (Women's Royal Naval Service) moviam símbolos e indicadores para rastrear os movimentos dos navios e aviões no Mediterrâneo, ainda estão lá, com suas réguas e suas peças.
Nas paredes estão penduradas mapas originais do Mediterrâneo, com anotações à mão ainda legíveis. Os telefones de campo, os equipamentos de rádio e os sistemas de comunicação interna completam um quadro de rara completude. Algumas salas estão equipadas com manequins em uniforme que reproduzem as cenas operativas, ajudando o visitante a imaginar o ritmo frenético daqueles meses de guerra. O percurso guiado — incluído no ingresso — dura cerca de 45-60 minutos e fornece o contexto histórico necessário para compreender a importância estratégica de cada ambiente.

O contexto histórico: Malta como fortaleza mediterrânea
Para entender as War Rooms, é preciso entender Malta durante a guerra. A ilha foi uma das áreas mais bombardeadas do conflito: entre 1940 e 1942 sofreu mais de 3.000 ataques aéreos, tanto que em 1942 o rei Jorge VI conferiu coletivamente à população maltese a Cruz de Jorge, a mais alta honraria civil britânica. Nesse contexto de cerco, os túneis sob Valletta não eram apenas uma escolha tática, mas uma necessidade de sobrevivência: a rocha calcária oferecia uma proteção natural contra os bombardeios que devastavam a cidade acima.

As galerias estavam conectadas a uma rede mais ampla de túneis que atravessam o subsolo de Valletta, alguns datando da época dos Cavaleiros. Durante a visita, os guias explicam como o pessoal militar — composto por oficiais britânicos, americanos e malteses — vivia e trabalhava nesses espaços apertados por semanas consecutivas, coordenando as operações navais e aéreas em um teatro de guerra que se estendia do Atlântico ao Oriente Médio.
Como visitar as War Rooms Lascaris

As Salas de Guerra Lascaris estão localizadas dentro das Lascaris War Rooms, acessíveis pela área dos Jardins Lower Barrakka ou seguindo as indicações da zona do Grand Harbour. O local é gerido por uma fundação sem fins lucrativos e o bilhete de entrada custa cerca de 10-12 euros para adultos, com reduções para estudantes e crianças. As visitas são guiadas e partem em horários regulares durante o dia.
A dica prática mais útil: reservar com antecedência online, especialmente nos meses de verão entre junho e setembro, quando Valletta registra um alto fluxo turístico e os grupos podem preencher rapidamente os lugares disponíveis. A visita requer descer algumas rampas de escadas e mover-se em corredores relativamente estreitos, o que pode ser difícil para quem tem problemas de mobilidade. Leve uma camada leve extra: o contraste entre o calor externo e a temperatura constante dos túneis pode surpreender. Calcule pelo menos uma hora e meia para a visita completa, incluindo o tempo para ler os painéis informativos e observar os detalhes dos instrumentos originais.
Por que vale a visita
Em um panorama museológico frequentemente dominado por reconstruções e montagens cenográficas, as War Rooms Lascaris oferecem algo mais raro: a sensação concreta de estar em um lugar onde a história realmente aconteceu, com os objetos originais ainda em seus lugares. Não é a grandiosidade dos espaços que impressiona — os túneis são austeros e funcionais — mas a densidade de significado que cada mesa, cada telefone, cada mapa carrega consigo.
Para quem visita Valletta — cidade patrimônio da UNESCO desde 1980 — as War Rooms representam um complemento essencial para a compreensão da identidade maltesa contemporânea, profundamente marcada pela experiência da guerra e pelo orgulho da resistência coletiva daquelas anos.
