Do coração do Estado Amazonas da Venezuela ergue-se uma das formações rochosas mais extraordinárias do continente sul-americano: o Cerro Autana, um tepui que atinge 1.300 metros de altitude e se destaca da planície amazônica como um monólito solitário, cujas paredes verticais de quartzito precambriano caem abruptamente por centenas de metros. Não é um vulcão no sentido clássico do termo — não flui lava, não há crateras ativas — mas sua origem pertence a uma história geológica ainda mais antiga e fascinante: essas rochas têm mais de um bilhão de anos e contam a história de um mundo primordial que precede até mesmo os dinossauros.
Para o povo Piaroa, que habita as florestas aos pés da montanha, o Cerro Autana não é simplesmente uma montanha. É o tronco da árvore cósmica originária, o eixo do mundo do qual nasceram os frutos que deram vida à humanidade. Essa dimensão sagrada não é uma lenda folclórica marginal: é o centro da cosmogonia Piaroa, e quem se aproxima deste lugar deve fazê-lo com a consciência de estar caminhando sobre uma terra que pertence, antes de tudo, a uma comunidade indígena viva e presente.
A caverna que atravessa a montanha
O que torna o Cerro Autana único entre os tepuis venezuelanos — e há dezenas, incluindo o célebre Roraima e o Kukenán — é a presença de uma caverna que atravessa quase inteiramente o cume da montanha. Esta galeria natural, com cerca de 400 metros de comprimento e altura em alguns pontos de até 30 metros, se formou através de processos cársticos que erodiram o quartzito ao longo de milhões de anos. É um fenômeno geológico raríssimo: o quartzo é um dos minerais mais resistentes à erosão química, e ainda assim aqui a água encontrou uma maneira de escavar um túnel dentro de uma das rochas mais duras do planeta.
Dentro da caverna vivem colônias de aves guácharo (Steatornis caripensis), noturnas e capazes de se orientar por ecolocalização, cujo grito preenche a escuridão da caverna com um som inesquecível. As paredes estão cobertas de formações minerais e musgos adaptados ao ambiente úmido e escuro, enquanto através das aberturas da abóbada filtram raios de luz que criam efeitos visuais de grande intensidade. Quem consegue atravessar a caverna emerge do outro lado da montanha com uma perspectiva completamente diferente sobre a floresta amazônica abaixo.
Como chegar e o que esperar
Chegar ao Cerro Autana não é uma excursão ordinária. O ponto de partida logístico é Puerto Ayacucho, capital do Estado Amazonas, acessível de avião a partir de Caracas. De lá, é necessário organizar um traslado de barco ao longo do Rio Orinoco e seus afluentes — uma viagem que pode levar um ou mais dias, dependendo do ponto de embarque — até as comunidades Piaroa que vivem aos pés do tepui. Não existem estradas que cheguem perto da montanha.
É indispensável organizar a visita através de guias locais Piaroa ou agências especializadas em ecoturismo indígena com sede em Puerto Ayacucho. O acesso à montanha requer a permissão da comunidade indígena, e tentar chegar lá de forma autônoma é tanto eticamente incorreto quanto praticamente impossível sem o conhecimento do território. O melhor período para visitar a região é a estação seca, entre novembro e março, quando os níveis dos rios são mais gerenciáveis e as chuvas menos intensas, embora a Amazônia venezuelana mantenha uma umidade elevada durante todo o ano.
A geologia como espetáculo visual
Observando o Cerro Autana da planície, a primeira coisa que impressiona é o contraste cromático: as paredes de quartzito assumem tonalidades que vão do cinza pálido ao ocre queimado, manchadas de negro pelas colônias de algas e cianobactérias que colonizam as superfícies úmidas. O cume plano — característica definidora dos tepuis — é coberto por uma vegetação endêmica adaptada às condições extremas de substrato pobre em nutrientes e forte irradiação solar.
Essa geologia é o resultado direto do Escudo das Guianas, uma das formações rochosas mais antigas da Terra, que afloram na Venezuela, Guiana, Suriname e Brasil. Os tepuis são os restos erodidos de um antigo planalto continental, e o Cerro Autana representa um dos exemplos mais isolados e espetaculares dessa morfologia. Olhá-lo significa olhar dentro do tempo geológico com uma clareza que poucos lugares no mundo sabem oferecer.
Respeito e responsabilidade na visita
Qualquer visita ao Cerro Autana implica uma responsabilidade cultural precisa. O território é terra indígena Piaroa reconhecida pelo Estado venezuelano, e o turismo que ocorre lá deve necessariamente envolver e beneficiar a comunidade local. Fotografar pessoas sem consentimento, coletar plantas ou minerais, e comportar-se de maneira leviana em relação às normas espirituais do local são comportamentos inaceitáveis.
Levar consigo o mínimo indispensável, confiar completamente nas guias locais e manter uma atitude de escuta são as bases para uma experiência que deixa algo de real — não apenas imagens para compartilhar, mas a compreensão concreta de quão antigo e frágil é o mundo natural que nos acolhe.