
As vinhas se estendem por 300 hectares ao longo das encostas do Vale do Bekaa, a uma altitude que supera os 1.000 metros acima do nível do mar. É aqui que se encontra o Château Kefraya, uma propriedade vinícola libanesa construída em torno de um imponente edifício em pedra calcária local, cuja cor ocre muda de tonalidade com a variação da luz durante o dia. A vinícola é de propriedade da família de Bustros, que desenvolveu a adega a partir dos anos setenta do século XX, transformando um território áspero e ventoso em uma das denominações mais reconhecíveis do Líbano.

O Vale do Bekaa desfruta de um clima continental com verões quentes e secos e invernos rigorosos, condições que favorecem a concentração dos aromas nas uvas. Os solos argilo-calcários, típicos desta área do Oriente Médio, conferem aos vinhos uma estrutura mineral que se percebe claramente na boca, especialmente nos tintos. O Chef Farid Chehab contribuiu para valorizar a experiência gastronômica da propriedade, combinando a cozinha libanesa tradicional com os rótulos da adega e tornando a visita um percurso sensorial completo.
O Comte de M: o tinto que representa a propriedade

O vinho mais célebre produzido pelo Château Kefraya é o Comte de M, um blend tinto que combina principalmente Cabernet Sauvignon, Syrah e Mourvèdre. Essas três variedades internacionais se adaptam bem às condições do Bekaa, onde as variações de temperatura entre o dia e a noite durante a estação de maturação permitem preservar a acidez natural da uva, ao mesmo tempo em que desenvolvem uma alta concentração polifenólica. O resultado é um vinho de cor rubi profundo, com notas de frutas negras, especiarias e uma leve nuance herbácea que remete à paisagem montanhosa circundante.
Durante a degustação na vinícola, o Comte de M é servido a uma temperatura controlada em taças amplas, e a equipe orienta os visitantes através das diferentes safras disponíveis. É possível notar como as colheitas mais recentes tendem a expressar uma frescura maior em comparação com as versões mais maduras, que desenvolvem notas terciárias de couro e tabaco. A estrutura tânica está presente, mas não é agressiva, e o final se prolonga com uma persistência aromática que deixa uma lembrança agradável.

O tour da vinícola e os tanques de fermentação
O percurso guiado na vinícola geralmente começa pelos tanques de fermentação em aço inoxidável, onde as uvas são vinificadas separadamente por variedade antes da assemblagem final. Os visitantes podem observar de perto as barricas de madeira de carvalho francês dispostas nas adegas subterrâneas, onde a temperatura permanece constante graças à massa térmica das paredes de pedra. A umidade e o silêncio desses ambientes contribuem para criar uma atmosfera acolhedora que torna a visita diferente de uma simples degustação comercial.

Os guias explicam o processo de envelhecimento, que para o Comte de M prevê um período em madeira de cerca de doze meses, seguido por um período adicional de descanso em garrafa antes da comercialização. Essa abordagem requer um planejamento de longo prazo que a vinícola desenvolveu ao longo das décadas, construindo uma reserva de safras que permite manter uma qualidade constante mesmo em anos climaticamente difíceis.
O terroir do Vale da Bekaa e as variedades de uvas cultivadas

Além das variedades internacionais, o Château Kefraya também cultiva variedades como o Cinsault, que no Líbano tem uma história enraizada que remonta à época do Mandato Francês no início do século XX. O Cinsault entra em alguns blends mais leves e é utilizado também para a produção de vinhos rosés, que se mostram particularmente frescos e adequados ao clima de verão da região. Os brancos da propriedade são baseados principalmente em Viognier e Chardonnay, variedades que a essas altitudes desenvolvem uma complexidade aromática interessante com notas florais e frutadas bem definidas.
O terroir da Bekaa é caracterizado também pela presença do Monte Líbano a oeste e do Anti-Líbano a leste, duas cadeias montanhosas que protegem o vale dos ventos úmidos do Mediterrâneo e criam um microclima semiárido favorável à viticultura. A irrigação é necessária em algumas parcelas, mas a vinícola adotou técnicas de gestão hídrica cuidadosa para limitar o estresse hídrico excessivo durante a fase de maturação.
Dicas práticas para a visita
O melhor período para visitar o Château Kefraya é de maio a outubro, quando o Vale da Bekaa é acessível sem dificuldades e a paisagem vinícola está em plena expressão. A colheita, que geralmente ocorre entre agosto e setembro, representa um momento particularmente interessante para quem deseja observar o trabalho na vinha. É recomendável reservar com antecedência o tour da vinícola, especialmente nos finais de semana, pois os grupos são numerosos durante a temporada turística libanesa.
Para chegar a Kefraya a partir de Beirute, percorre-se a autoestrada em direção à Bekaa através do passo de Dahr el Baidar, um trajeto de cerca de 60 quilômetros que leva uma hora de condução em condições normais. É preferível ter um carro próprio ou um serviço de transporte privado, pois os meios de transporte público para a propriedade não são frequentes. Uma visita completa, incluindo tour da vinícola, degustação e almoço com harmonização, requer pelo menos três horas e permite apreciar tanto os vinhos quanto a vista das encostas montanhosas circundantes.
