
Abaixo dos pés, a alguns metros de profundidade, estendem-se galerias escavadas há dois mil anos pelos romanos. É aqui, nas cavernas naturais de Ksara, no Vale do Bekaa, que os jesuítas franceses fundaram em 1857 o que se tornaria a vinícola mais antiga do Líbano. Château Ksara não é simplesmente um produtor de vinho: é um lugar onde a história física — as paredes de rocha, as garrafas empoeiradas, o ar fresco a temperatura constante — conta algo que as palavras têm dificuldade em transmitir.

O Vale do Bekaa está localizado a cerca de 1.000 metros de altitude, apertado entre o Monte Líbano a oeste e o Anti-Líbano a leste. Este planalto semiárido, com invernos frios, verões quentes e secos, e uma luminosidade intensa que dura quase todo o ano, oferece condições excepcionais para a viticultura. O solo calcário e bem drenado, combinado com as variações de temperatura entre o dia e a noite, permite que as uvas desenvolvam uma concentração aromática que os produtores locais conhecem há séculos, mas que o mercado internacional começou a apreciar apenas recentemente.
As cantinas romanas: um percurso subterrâneo a não perder

A visita ao Château Ksara inclui o percurso nas galerias subterrâneas, que se desenvolvem por cerca de dois quilômetros sob a propriedade. Originalmente usadas como refúgios ou depósitos na época romana, essas cavernas foram redescobertas pelos jesuítas no final do século XIX e adaptadas para a conservação do vinho. A temperatura interna permanece estável em torno de 12-14 graus centígrados durante todo o ano, sem necessidade de sistemas de climatização artificial.
Caminhando ao longo das galerias, encontram-se fileiras de barris de carvalho e milhares de garrafas em envelhecimento. A iluminação é deliberadamente suave, e a umidade do ar é perceptível na pele. É um daqueles raros casos em que uma infraestrutura produtiva se torna também uma experiência sensorial autêntica. Os guias explicam o processo de envelhecimento e mostram as diferentes áreas da cantina, desde os barris maiores para os vinhos tintos estruturados até as áreas reservadas para os brancos e rosés.

Os vinhos: variedades internacionais e identidade local
Château Ksara produz principalmente a partir de variedades internacionais cultivadas na Bekaa: Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Chardonnay e Sauvignon Blanc estão entre as variedades mais presentes. A vinícola engarrafa diferentes linhas, desde rótulos de entrada acessíveis até reservas envelhecidas em madeira por vários anos. O Château Ksara Reserve du Couvent está entre os tintos mais conhecidos: um blend que varia ligeiramente de safra para safra, mas que foca na estrutura tânica e na capacidade de envelhecimento.

O terroir da Bekaa imprime aos vinhos uma característica que os degustadores frequentemente descrevem como uma tensão entre fruta madura e frescor mineral. A altitude mitiga o calor do verão e preserva a acidez natural das uvas, evitando aquela pesadez alcoólica que às vezes caracteriza os vinhos produzidos em climas mais quentes. Os brancos, em particular o Blanc de Blancs, se mostram surpreendentemente frescos e florais para uma região que muitos associam instintivamente aos tintos poderosos.
A degustação: o que esperar e como se organizar

Ao final do percurso nas galerias, os visitantes acessam a sala de degustação, onde é possível provar diferentes rótulos acompanhados de queijos e embutidos locais. Os pacotes de visita geralmente incluem o tour das vinícolas mais uma seleção de três ou quatro vinhos. Os preços para a visita guiada com degustação giram em torno de 15-25 dólares americanos por pessoa, valor que pode variar de acordo com o número de vinhos incluídos e as ofertas sazonais.
O melhor momento para visitar é pela manhã, quando os grupos são menos numerosos e as temperaturas externas ainda estão frescas. A vinícola está localizada na aldeia de Ksara, a cerca de 50 quilômetros de Beirute, acessível de carro pela autoestrada em direção ao Bekaa e depois seguindo as indicações para Zahle. O trajeto de carro de Beirute leva cerca de uma hora em condições normais de tráfego. É recomendável reservar a visita com antecedência, especialmente nos finais de semana e nos meses da primavera, quando o fluxo de turistas libaneses e estrangeiros é maior.
O contexto: visitar o Vale da Bekaa hoje
Ksara está localizada em uma das áreas mais férteis do Líbano, e a vinícola não é o único produtor da região — outros nomes como Kefraya e Ixsir operam no mesmo vale. Mas o Château Ksara continua sendo o ponto de referência histórico, tanto pela continuidade da produção quanto pela acessibilidade da visita. A vinícola manteve a produção mesmo durante os períodos mais difíceis da história recente do país, e esse dado — mais de 160 anos de atividade ininterrupta — diz algo sobre a resiliência de quem trabalha aqui e sobre o apego ao território que caracteriza essa viticultura.
Levar para casa algumas garrafas é quase obrigatório: os preços na vinícola são inferiores aos que se encontram nas lojas de Beirute, e alguns rótulos estão disponíveis exclusivamente no local. Vale a pena perguntar ao pessoal quais safras estão disponíveis para venda direta, pois a oferta muda de estação para estação.
