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Fernando de Noronha pelo olhar de quem mora perto — São Paulo
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Natureza selvagem 📍 São Paulo, Brasil

Fernando de Noronha pelo olhar de quem mora perto

## A primeira vez que entendi o arquipélago Cheguei em Fernando de Noronha num voo de manhã cedo saindo do Recife — quarenta e cinco minutos, o tempo de tomar um café e já ver o verde escuro do Atlântico lá embaixo. A ilha aparece de repente, como um conjunto de dentes vulcânicos...

Photo · Juliana P.

Fernando de Noronha pelo olhar de quem mora perto — São Paulo, Brasil.

Local
São Paulo
Categoria
Natureza selvagem
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Fernando de Noronha pelo olhar de quem mora perto - São Paulo | Secret World Trip Planner

## A primeira vez que entendi o arquipélago

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Cheguei em Fernando de Noronha num voo de manhã cedo saindo do Recife — quarenta e cinco minutos, o tempo de tomar um café e já ver o verde escuro do Atlântico lá embaixo. A ilha aparece de repente, como um conjunto de dentes vulcânicos saindo do oceano. Não tem como não ficar boca aberta. Só que o que me marcou mesmo não foi aquela paisagem clássica do Baía do Sancho que você já viu mil vezes nas revistas — foi a conversa com Dona Célia, que vende tapioca numa barraquinha improvisada perto da Vila dos Remédios, ao lado da Rua Nice Cordeiro, por R$ 9,50 a unidade (recheio simples de coco). Ela nasceu na ilha. Filha de pescador. E quando perguntei o que ela achava do turismo, ela parou, pensou um segundo e disse: "A ilha sustenta a gente. Mas a gente também sustenta a ilha. O pessoal de fora às vezes esquece a segunda parte."

Essa frase ficou comigo durante toda a viagem.

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## O que os noronhenses pensam — e raramente falam pra turista

Fernando de Noronha tem cerca de três mil habitantes permanentes num arquipélago de 26 km² no meio do Atlântico, a 545 km de Recife. Desse total, 17 km² são da ilha principal, onde acontece praticamente tudo. O restante são ilhotas e rochedos inacessíveis que fazem parte do Parque Nacional Marinho, administrado pelo ICMBio.

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A maioria dos moradores que conversei — e foram pelo menos uns oito, entre guias, funcionários de pousadas e pessoas da Vila dos Remédios — tem uma relação ambígua com o turismo de massa. Por um lado, é a economia. Por outro, a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), que todo visitante paga por dia de permanência (em torno de R$ 130 a R$ 160 dependendo do período — acho que sim, melhor confirmar nos valores atualizados no site do governo de Pernambuco), financia serviços que beneficiam quem mora ali. A escola, o posto de saúde, a manutenção das estradas.

Mas tem uma crítica que ouvi repetida vezes: o turista médio chega, vai às praias mais fotografadas, posta nas redes e vai embora sem entender nada da cultura local, da história da ilha como presídio político durante o Estado Novo, da relação centenária com o mar. "A galera quer Baía do Sancho mas não sabe nem que Noronha foi colônia penal", disse Marcos, um guia credenciado de uns 38 anos, enquanto dirigia uma Moto Elétrica — o transporte padrão da ilha — pela Estrada Velha do Sueste.

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## Onde os locais vão de verdade

Esqueça por um momento o roteiro padrão. Sim, Baía do Sancho, Baía dos Porcos e Praia do Leão são bonitas de partir o coração — não vou negar. Mas tem lugares onde você encontra mais moradores do que turistas.

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A **Praia da Conceição** num fim de tarde de semana, por volta das 17h, é frequentada por famílias locais que chegam depois do expediente. Não tem estrutura elaborada. A água é menos translúcida que as praias do sul da ilha, mas o clima é completamente diferente — crianças brincando, cachorro correndo na areia, aquela sensação de estar num lugar que pertence às pessoas de verdade.

O **Bar do Meio**, que fica num canto quase sem placa perto da área central de Vila dos Remédios, abre por volta das 18h30 (mas pode variar — melhor perguntar na pousada) e serve peixe frito com molho de pimenta por valores bem mais razoáveis do que os restaurantes voltados para turistas. Uma porção sai por R$ 42,00 e dá pra dividir.

Aliás, falando em comida: a lagosta é o símbolo gastronômico da ilha e pode custar caro mesmo, dependendo do restaurante. Já o atum grelhado simples, disponível em vários lugares, é o que os moradores comem no dia a dia. Peça isso.

Ou então vá à **Pedra do Atalaia** num horário que não seja o instagramável — não às 7h quando todo mundo corre pra foto do sol nascendo. Vá tipo umas 10h, quando a maré ainda permite entrar nas piscinas naturais mas o movimento diminuiu. Os guias locais fazem esse horário entre si quando estão de folga.

## O que evitar — sem papas na língua

Primeiro: não alugar quadriciclo se você não está acostumado. Parece óbvio, mas vi pelo menos dois acidentes menores em cinco dias. As estradas têm irregularidades e o sol ofusca. A Moto Elétrica (alugada por volta de R$ 120 a R$ 150 por dia) é mais segura e mais sustentável. Ou o buggy, com motorista incluso.

Segundo: não nadar na Praia do Leão depois das 16h. Não é superstição. É orientação do ICMBio. Tubarão-cabeça-de-touro frequenta a área. Os placas estão lá, mas as pessoas ignoram porque a água parece calma.

Terceiro — e esse é o que mais me incomodam como jornalista que cobre cidades e seus ecossistemas: não chegue na ilha sem nenhuma pesquisa sobre o que é permitido fazer. Tocar nos corais? Proibido. Alimentar a fauna? Proibido. Entrar em trilhas sem guia credenciado em determinadas áreas? Também. A multa existe e é aplicada. Não é blefe.

Pena que muita gente só descobre isso quando já recebeu a autuação.

Quarto: evite ir em alta temporada (dezembro-janeiro e julho) se você tem sensibilidade a multidão. A ilha fica saturada de um jeito que prejudica tanto a experiência quanto a própria conservação. Os noronhenses com quem conversei preferem — para si próprios — o período de setembro-outubro. Água mais quente, menos gente, golfinhos-rotadores em quantidade absurda no Canal do Sueste (eu vi uns trezentos de uma vez, parei de contar na casa dos duzentos).

## A questão que ninguém responde direito

Há um debate que circula nos bastidores da ilha e que eventualmente aparece em conversas mais francas: até que ponto o modelo atual de turismo é sustentável? O número de visitantes é limitado oficialmente, mas a pressão sobre a infraestrutura — água, energia, resíduos — é real e crescente. Uma fonte que prefere não ser identificada (trabalha na gestão ambiental, digamos assim) me disse que certos indicadores de qualidade da água em algumas praias mostraram variação nos últimos anos. Não sei o quanto isso é generalizado — acho que sim, melhor confirmar com relatórios do ICMBio, que são públicos.

O que os moradores em geral concordam é que o turista consciente, que entende a lógica de conservação, que respeita as regras e gasta com os negócios locais em vez das grandes operadoras de fora, faz diferença. "Prefiro dez turistas que entendem do que cem que não ligam", disse Marcos, o guia, perto do fim do nosso passeio.

## Como chegar e o básico que você precisa saber

Os voos saem de Recife e Natal. De Recife são uns 45 minutos, de Natal uns 30. As companhias Gol e Latam operam a rota — os preços variam absurdamente dependendo da época, mas espere pagar entre R$ 600 e R$ 1.800 por trecho em média (acho que sim, melhor confirmar nos agregadores de passagens).

A TPA é cobrada por dia, em reais, e vale guardar o comprovante. O pagamento é feito online antes do embarque ou no próprio aeroporto da ilha.

Acomodação na Vila dos Remédios — o núcleo urbano central — é geralmente mais barata do que nas pousadas próximas às praias do sul. Não é tão conveniente pra quem quer só praia, mas é onde você vai ouvir os melhores causos à noite.

Transporte na ilha: Moto Elétrica ou buggy. Carro de aluguel convencional também existe mas é menos comum. As estradas principais passam pela BR-363 e pela Estrada da Baia dos Golfinhos — nomes que você vai ouvir o tempo todo.

## Feche os olhos e pense no barulho do mar

No último dia, voltei à barraquinha de Dona Célia. Eram umas 14h47, sol na testa. Pedi outra tapioca (desta vez com queijo coalho, R$ 11,00) e fiquei olhando pra Igreja Nossa Senhora dos Remédios — construída no século XVIII, cor branca que ofusca — enquanto dois gatos dormiam na sombra de uma árvore sem nome que eu não soube identificar.

Noronha não é o paraíso perfeito que o Instagram vende. É uma ilha real, com gente real, com problemas reais de gestão e de pressão turística. Ela é linda de um jeito que dói um pouco. E talvez seja isso que a torna honesta.

Você já foi alguma vez num lugar tão bonito que ficou com medo de que ele não sobrevivesse ao próprio sucesso?

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