A barca diminui a velocidade e o motor silencia. Ao redor, a água se torna um espelho perfeito que reflete colinas calcárias cobertas de vegetação densa, emergindo do mar como ilhas pré-históricas. Estamos no Parque Nacional Los Haitises, na baía de Samaná, na República Dominicana setentrional, e a única maneira de chegar lá é exatamente esta: por água, deslizando entre canais de manguezais onde as raízes se entrelaçam como dedos na água salobra.
O parque, oficialmente instituído em 1976, protege cerca de 1.600 quilômetros quadrados de um dos ecossistemas mais complexos do Caribe: florestas de mangue, formações cársticas de calcário — os chamados mogotes — e um sistema de cavernas que guarda algo extraordinário: centenas de petroglifos e pictogramas deixados pelo povo Taíno, os habitantes originais da ilha antes da chegada dos europeus em 1492.
As cavernas e a arte rupestre dos Taínos
As cavernas mais acessíveis aos visitantes são a Cueva de la Línea e a Cueva de Arena, alcançáveis com uma breve caminhada após o desembarque do barco. No interior, as paredes de calcário conservam imagens gravadas ou pintadas com pigmentos escuros: figuras antropomórficas, animais estilizados, símbolos geométricos que os pesquisadores associaram a rituais espirituais e cerimônias Taínas. Tocar nelas é proibido, e os guias locais explicam o porquê com certa firmeza: a umidade das mãos acelera o deterioramento de superfícies que resistiram por séculos.
O que impressiona fisicamente, estando dentro dessas cavidades, é o contraste entre o silêncio quase total e a densidade visual das paredes: cada metro quadrado parece conter uma mensagem. Os petroglifos — gravações diretas na rocha — se distinguem dos pictogramas, que são pintados. Ambas as técnicas coexistem nas mesmas cavernas, sugerindo usos prolongados ao longo do tempo pelas comunidades Taínas.
O paisagem cárstico e as manguezais
Antes mesmo de entrar nas cavernas, o percurso de barco pelos canais de manguezais já é por si só uma experiência visual densa. As raízes aéreas das Rhizophora mangle — a mangue vermelha — criam arquiteturas naturais que filtram a luz de maneiras imprevisíveis. Nas primeiras horas da manhã, quando a névoa baixa se posa sobre a água, a paisagem assume uma qualidade quase irreal.
As formações cársticas que emergem da água — os mogotes — são o resultado de milênios de erosão calcária. Algumas alcançam alturas consideráveis e estão completamente cobertas por vegetação tropical densa, com árvores que crescem diretamente da rocha. Pelicanos pardos, garças e fragatas sobrevoam regularmente a área, tornando o parque também um local de interesse para a observação de aves.
Como organizar a visita
O parque não é acessível de forma independente por terra na maioria dos seus principais pontos de interesse. Os passeios de barco partem tipicamente de Samaná ou de Sánchez, com excursões que duram em média entre 4 e 6 horas. O custo dos passeios organizados varia geralmente entre 40 e 70 dólares americanos por pessoa, dependendo do operador e dos serviços incluídos. É possível reservar diretamente nos portos ou através de agências locais nas cidades próximas.
O melhor momento para visitar é de manhã cedo, tanto pela luz mais favorável à fotografia quanto para evitar o calor da tarde e a maior afluência de grupos turísticos. A estação seca, entre dezembro e abril, garante condições meteorológicas mais estáveis, embora o parque possa ser visitado durante todo o ano. Levar repelente para insetos é fortemente recomendado: as manguezais abrigam mosquitos em quantidade, especialmente nas horas menos ventiladas.
O que saber antes de partir
Dentro do parque é necessário o pagamento de um ingresso separado do custo do tour, geralmente incluído pelos operadores turísticos, mas a ser verificado no momento da reserva. Guias certificados pelo Ministério do Meio Ambiente são obrigatórios para acessar as cavernas, e isso é um aspecto positivo: as explicações contextuais sobre a arte Taíno e o ecossistema tornam a visita muito mais rica em comparação a uma entrada autônoma.
É útil saber que as cavernas são ambientes úmidos e o chão pode ser escorregadio: sapatos com sola antiderrapante são preferíveis a sandálias. Fotografias dentro das cavernas são geralmente permitidas sem flash, para não perturbar os quirópteros — os morcegos — que habitam algumas cavidades. Los Haitises não é um destino de cartão-postal: é um lugar que requer atenção, curiosidade e um certo respeito pelo que se tem à frente.