
Um barco a motor desgastado leva cerca de quarenta minutos para percorrer os onze quilômetros que separam Les Cayes da Île-à-Vache. Durante a travessia, o mar do Caribe meridional muda de cor três vezes: do verde escuro do porto, para o turquesa claro, até o azul quase transparente que anuncia a barreira de corais que circunda a ilha. É nesse momento, quando se vê o contorno baixo e verde da ilha se destacando contra o céu, que se entende que se está chegando a um lugar que o turismo de massa ainda não alcançou.

Île-à-Vache — literalmente Ilha da Vaca em francês crioulo — se estende por cerca de 52 quilômetros quadrados no departamento do Sul do Haiti. A ilha conta com uma população de algumas milhares de habitantes distribuídos em pequenas vilas de pescadores, onde as casas de madeira colorida se debruçam diretamente sobre a praia e as pirogas são puxadas para a areia todas as noites. Não há semáforos, não há ruas asfaltadas, não há supermercados. O que existe é um ecossistema costeiro entre os melhor preservados de todo o Mar do Caribe.
Uma história que remonta aos piratas do século XVII

A ilha não é estranha à história. No século XVII, Île-à-Vache foi utilizada como base operacional pelo célebre bucaneiro galês Henry Morgan, que a escolheu por sua posição estratégica e pelas águas protegidas de suas lagoas, ideais para abrigar os navios antes das incursões. Ainda hoje, navegando ao longo da costa sul, podem-se ver formações rochosas que os locais indicam como lugares onde os navios eram colocados em seco para a manutenção do casco.
No século XIX, a ilha esteve no centro de um controverso projeto de colonização afro-americana promovido durante a presidência de Abraham Lincoln em 1863: cerca de 453 afro-americanos libertados foram transportados para a ilha com a promessa de terras e autonomia. O projeto falhou de maneira trágica devido a doenças e desorganização, e os sobreviventes foram trazidos de volta aos Estados Unidos no ano seguinte. Uma história pouco conhecida que adiciona camadas de significado a este pedaço de terra caribenha.

As barreiras de corais e as lagoas: o que ver debaixo d'água
A razão principal pela qual os poucos viajantes que chegam até aqui voltam para casa com os olhos ainda arregalados é o recife. As águas ao redor da ilha abrigam barreiras de corais em um estado de saúde notavelmente melhor em comparação à média caribenha, em parte porque a ausência de infraestrutura turística limitou a pressão antropogênica. Quem faz snorkeling nas águas em frente à praia de Kay Cok pode observar corais ramificados, peixes-papagaio, barracudas e, com um pouco de sorte, tartarugas marinhas verdes que frequentam essas águas para desovar.

As lagoas internas, separadas da barreira por faixas de areia branca, atingem uma profundidade máxima de poucos metros e oferecem uma visibilidade excepcional. A água é tão calma e clara que é possível ver ouriços-do-mar no fundo mesmo da borda do barco. Não existem centros de mergulho organizados na ilha: quem deseja mergulhar deve trazer seu próprio equipamento ou confiar nos raros operadores que partem de Les Cayes.
A vida nos vilarejos: uma economia ainda ligada ao mar

Os vilarejos da ilha — entre os quais Madame Bernard é o mais populoso — vivem principalmente da pesca artesanal. Ao amanhecer, quando as pirogas saem em fila para o alto-mar, a ilha se anima com o barulho de remos e motores de popa que é a trilha sonora diária desta comunidade. O peixe é vendido fresco na praia ou cozinhado pelas mulheres do vilarejo em simples fogões a lenha. Uma refeição à base de peixe grelhado com arroz e feijão preto — o riz et pois, prato básico da culinária haitiana — custa poucos dólares e é frequentemente servida sob um toldo de palha.
Não existem hotéis no sentido convencional do termo, mas algumas famílias alugam quartos ou pequenas casas. Um dos poucos alojamentos estruturados é um pequeno ecolodge que ao longo dos anos acolheu voluntários e pesquisadores. Levar uma mosquiteiro é fortemente recomendado, assim como uma reserva de dinheiro em gourdes haitianas, pois os pagamentos eletrônicos são praticamente inexistentes.
Como chegar e quando ir
O ponto de partida obrigatório é Les Cayes, acessível de avião a partir de Porto Príncipe com voos internos operados por companhias locais, ou por terra em cerca de três horas de estrada. Do porto de Les Cayes partem barcos locais para a ilha várias vezes ao dia nas horas da manhã: a recomendação é partir até às 8 da manhã para evitar o vento da tarde que pode tornar a travessia mais agitada. O melhor período para visitar a ilha vai de novembro a abril, quando as chuvas são menos frequentes e o mar é geralmente mais calmo. Durante a temporada de furacões, de junho a outubro, a ilha pode ser difícil de alcançar por dias inteiros. Quem chega com expectativas de conforto encontrará dificuldades; quem busca isolamento autêntico encontrará exatamente o que procurava.
