A água da lagoa reflete as copas das árvores cobertas de musgo com uma perfeição quase inquietante, como um espelho que duplica o silêncio. A Laguna de las Momias, escondida entre as florestas de nuvens da região de Amazonas, no Peru setentrional, não aparece em muitos mapas turísticos padrão, e esse é exatamente o motivo pelo qual vale a pena a viagem. O ponto de partida para alcançá-la é Leymebamba, uma pequena localidade a cerca de 2.700 metros acima do nível do mar, de onde são organizadas as excursões a cavalo que exigem pelo menos dois dias de caminhada.
A lagoa deve seu nome às mais de 200 múmias Chachapoya recuperadas em 1997 das chullpas — as torres funerárias — construídas diretamente na rocha calcária das paredes íngremes que se debruçam sobre a água. Essas múmias estão hoje conservadas e visíveis no Museu Leymebamba, inaugurado em 2000 com o apoio da Fundación Nor Yauyos-Cochas. O lago em si, no entanto, permanece uma das paisagens mais raras de toda a região andina.
As cores do amanhecer na lagoa
No amanhecer, quando a névoa da floresta nublada ainda não se dissipou, a superfície da água assume tonalidades cinza-prateadas que se misturam ao verde escuro das paredes vegetais circundantes. A luz filtra lentamente através da cobertura arbórea — dominada por polylepis e orquídeas selvagens — e cria faixas horizontais de cor que mudam a cada quinze minutos. É o momento em que o reflexo das chullpas nas rochas é mais nítido, porque o vento está quase ausente e a superfície permanece imóvel.
Aqueles que chegam ao acampamento base na noite anterior, após o primeiro dia de trekking, podem se posicionar na margem oriental do lago antes do nascer do sol. A distância entre a margem e as paredes rochosas com os sepultamentos é suficientemente curta para permitir distinguir a olho nu as aberturas nas chullpas, mesmo sem binóculo. O contraste entre a pedra ocre das torres funerárias e o verde intenso da vegetação é o detalhe visual mais imediato que se observa fisicamente no local.
A luz da tarde e o silêncio da floresta nublada
Na tarde, quando o sol atinge o ângulo mais alto em relação às paredes calcárias, as cores tendem a tons quentes: o laranja da rocha se intensifica, e o lago reflete manchas de céu azul alternadas com as sombras dos galhos. É também o momento em que a floresta nublada é mais silenciosa — os pássaros tendem a ser ativos nas primeiras horas da manhã — e a sensação de isolamento se torna quase física. Não há estruturas de hospedagem permanentes nas proximidades da lagoa, e os grupos que param para dormir usam tendas trazidas pelos mulateiros.
A vegetação que desce até a margem é densa e úmida em todas as estações. Os musgos cobrem cada superfície disponível, desde os troncos até os afloramentos rochosos, criando uma textura visual contínua que não deixa espaços vazios. Olhando para o centro do lago, o reflexo da floresta nublada é tão preciso que se torna difícil distinguir onde termina a floresta real e onde começa a refletida na água.
Como chegar e dicas práticas
O percurso padrão parte de Leymebamba, acessível de ônibus a partir de Chachapoyas — a capital regional — em cerca de três ou quatro horas por estrada de terra. De Leymebamba, as agências locais organizam a trilha com mulas e guias: o custo varia, mas gira em torno de 60-100 dólares por dia por pessoa, incluindo guia, mula e equipamento básico. É indispensável reservar com antecedência, especialmente entre junho e setembro, que é a estação seca e o período mais movimentado.
O primeiro dia de caminhada cobre um desnível significativo através da floresta, com trilhas que podem ser escorregadias mesmo na estação seca devido à umidade constante da floresta nublada. Levar camadas impermeáveis é necessário em qualquer época do ano. Antes ou depois da trilha, uma visita ao Museu Leymebamba é fortemente recomendada: expõe as múmias Chachapoya em condições de conservação controlada e fornece o contexto histórico para entender o que se observa nas paredes da lagoa.
Por que a paisagem permanece na memória
A combinação entre a altitude — a lagoa está situada a cerca de 3.500 metros acima do nível do mar — e a vegetação típica da floresta nublada produz uma qualidade de luz difícil de encontrar em outros lugares. O ar está saturado de umidade, e isso cria uma leve difusão luminosa que suaviza os contornos sem tirar a nitidez dos detalhes. As chullpas nas paredes rochosas, construídas pelos Chachapoya em um período que os arqueólogos situam entre 900 e 1500 d.C. aproximadamente, adicionam uma dimensão vertical à paisagem que de outra forma seria dominada apenas pela horizontal da água e pelo dossel vegetal.
O momento mais eficaz para fotografar a lagoa é nas duas primeiras horas após o amanhecer, quando a névoa ainda está parcialmente presente e o vento ainda não agitou a superfície. Quem para apenas algumas horas tende a partir sem ter visto a transformação completa da luz ao longo do dia, que é a parte mais lenta e mais difícil de descrever, mas também a que fica mais impressa.