
A cota de 1.170 metros acima do nível do mar, após cerca de quatro horas de caminhada por trilhas que atravessam florestas de lenga e planícies ventosas, se abre repentinamente uma das paisagens mais extraordinárias da Patagônia argentina. A Laguna de los Tres é um lago glacial incrustado entre as rochas graníticas do Parque Nacional Los Glaciares, e seu nome se refere às três cúpulas que a dominam. Mas é o Monte Fitz Roy — com seus 3.405 metros de torres de granito vertical — que rouba a cena de maneira absoluta.

As águas da lagoa são de um turquesa intenso, coloridas pelos sedimentos glaciares em suspensão, e nos dias de céu limpo refletem as agulhas do Fitz Roy com uma precisão quase irreal. Ao redor, as geleiras agarradas às paredes rochosas das cúpulas circundantes — incluindo o Cerro Poincenot e a Torre — completam uma paisagem que parece saída de um filme de ficção científica ambientado em outro planeta.
O trekking: números e desnível a não subestimar

O caminho que leva à Laguna de los Tres parte diretamente do centro da cidade de El Chaltén, a vila mais jovem da Argentina, fundada em 1985 exatamente para afirmar a soberania argentina sobre este território contestado com o Chile. O percurso de ida e volta mede cerca de 22 quilômetros com um desnível total de cerca de 800 metros, concentrado em grande parte no último trecho íngreme que sobe em direção à lagoa.
Esse final — um ganho de altitude de cerca de 400 metros em menos de dois quilômetros — é a parte mais desafiadora da excursão e requer atenção, especialmente se o terreno estiver molhado ou congelado. A duração média de toda a excursão gira em torno de 7 a 9 horas, dependendo do ritmo e das paradas. Não é uma caminhada para iniciantes absolutos, mas também não requer equipamento técnico de alpinismo: bastam sapatos de trekking com sola robusta, roupas em camadas e suprimentos de água suficientes.

O que se vê ao chegar à lagoa
Uma vez alcançada a margem da lagoa, a paisagem é fisicamente avassaladora. As paredes de granito do Fitz Roy se erguem quase verticalmente por mais de 2.000 metros a partir da base, marcadas por linhas de rocha que os geólogos chamam de dike — intrusões de magma solidificado em épocas remotas. A cor da rocha varia do cinza escuro ao vermelho ferruginoso dependendo da hora do dia e da luz.

O glaciar que alimenta a lagoa é visível diretamente acima da superfície da água: em certos períodos, ouvem-se os ruídos surdos do gelo se movendo ou se quebrando. A temperatura da água está próxima de zero mesmo no pleno verão austral, que na Patagônia corresponde aos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Na borda da lagoa não há estruturas nem serviços: apenas rochas, vento e silêncio.
O momento certo para ir

A melhor temporada para visitar a Laguna de los Tres é entre outubro e março, com o pico de condições favoráveis entre novembro e fevereiro. No inverno, a trilha pode estar coberta de neve e perigosa, e muitos serviços em El Chaltén fecham. Mas mesmo no verão, a Patagônia é imprevisível: o vento pode atingir velocidades superiores a 100 km/h e o céu pode passar de claro a tempestade em questão de minutos.
A dica mais importante é partir cedo pela manhã, idealmente até às 7:00 ou 8:00. Isso por duas razões: evitar a multidão na trilha, que nas horas centrais do dia pode se tornar intensa, e aumentar as chances de encontrar o Fitz Roy livre de nuvens, que tendem a se acumular à tarde. Levar pelo menos dois litros de água, comida suficiente para um dia inteiro e roupas impermeáveis é simplesmente inegociável.
Como chegar a El Chaltén
El Chaltén é alcançado principalmente de ônibus a partir de El Calafate, a cidade mais próxima com um aeroporto internacional. O trajeto dura cerca de três horas e meia por estrada asfaltada, com paisagens de estepes patagônicas que já são, por si só, uma experiência visual. Diversas companhias de ônibus realizam viagens diárias, com preços que variam de acordo com a temporada, mas que geralmente ficam entre 3.000 e 5.000 pesos argentinos por trecho, sujeitos a variações relacionadas à inflação local.
El Chaltén oferece uma boa variedade de acomodações, desde acampamentos até pousadas, mas durante a alta temporada é fundamental reservar com bastante antecedência. A cidade é pequena — conta com algumas milhares de habitantes — mas está bem equipada para os trekkers, com lojas de equipamentos, restaurantes e um escritório do parque onde é possível obter informações atualizadas sobre as trilhas e as condições climáticas. A entrada no parque é gratuita para os visitantes estrangeiros, pelo menos de acordo com as políticas em vigor nos últimos anos.
