
Uma 490 quilômetros da costa colombiana, no Pacífico oriental, emerge da superfície oceânica uma rocha vulcânica escura e quase vertical: Malpelo. Não há praias, não há estruturas turísticas, não há residentes permanentes, exceto por um pequeno destacamento da marinha militar colombiana que vigia a ilha. A única maneira de alcançá-la é a bordo de um barco live-aboard especializado em mergulho, após uma travessia em mar aberto que dura cerca de 36 horas partindo do porto de Buenaventura, na costa pacífica da Colômbia.
A ilha mede apenas 1,2 quilômetros quadrados de superfície emergida, mas a reserva marinha que a circunda se estende por mais de 857.000 hectares de oceano. Em 2006, a UNESCO incluiu Malpelo na lista do Patrimônio da Humanidade, reconhecendo a extraordinária biodiversidade de suas águas como um dos ecossistemas marinhos mais íntegros de todo o Pacífico oriental tropical. Aqui não se vem para caminhar ou visitar monumentos: vem-se para descer debaixo d'água.
O que esperar sob a superfície
Os mergulhos em Malpelo são tecnicamente desafiadores. As correntes podem ser fortes e imprevisíveis, a visibilidade varia consideravelmente, e alguns dos locais mais famosos estão a profundidades que exigem experiência avançada. O local conhecido como A Nevera, uma parede submersa no lado oeste da ilha, é um dos lugares onde com maior frequência se avistam os famosos cardumes de tubarões-martelo (Sphyrna lewini), que podem se reunir em grupos de centenas de exemplares. Essas agregações estão ligadas às correntes frias que sobem do fundo e trazem nutrientes à superfície.
Além dos tubarões-martelo, nas águas de Malpelo vivem estabilmente tubarões-de-pontas-brancas-oceânicos, raias, cardumes de peixes pelágicos e, com um pouco de sorte, tubarões-baleia. A fauna ictiológica é abundante também nas águas mais rasas: moreias gigantes, garoupas de grandes dimensões e nudibrânquios coloridos povoam as paredes rochosas cobertas de corais e esponjas. A ausência de pesca comercial na área protegida permitiu que esses ecossistemas se mantivessem em um estado de saúde raro no Pacífico.
A ilha emergente: rocha, pássaros e silêncio
A parte emergente de Malpelo é quase completamente inacessível: as paredes rochosas descem abruptamente no oceano e não existem ancoradouros fáceis. A superfície da ilha é dominada por vegetação rala e por colônias de aves marinhas, incluindo o gaivota de cauda de andorinha e diversas espécies de fragatas e atuns. O destacamento militar colombiano representa a única presença humana estável, e os soldados que prestam serviço lá se alternam em rotações periódicas.
Olhar para a ilha do barco, à noite, com as estrelas do Pacífico Sul visíveis sem qualquer poluição luminosa, é uma experiência por si só. O isolamento é total e perceptível fisicamente: nenhum sinal de telefone, nenhuma luz artificial no horizonte, apenas o barulho do mar e, pela manhã, o chamado dos pássaros nas rochas. Essa sensação de estar longe de tudo é parte integrante da viagem a Malpelo.
Como organizar a viagem
As embarcações live-aboard autorizadas a operar na área marinha protegida partem tipicamente de Buenaventura ou, em alguns casos, de Tumaco. Os passeios padrão duram entre 10 e 12 dias no total, incluindo a travessia de ida e volta e cerca de 5-6 dias de mergulhos na ilha. O custo de um lugar a bordo gira geralmente entre 4.000 e 6.000 dólares americanos por pessoa, dependendo do operador e do nível de conforto do barco.
A melhor temporada para visitar Malpelo é entre junho e novembro, quando as correntes frias aumentam a probabilidade de avistar grandes agregações de tubarões-martelo. No entanto, as condições meteorológicas e marinhas no Pacífico colombiano são variáveis em qualquer época do ano, e o enjoo durante a travessia é uma possibilidade concreta a ser considerada. É indispensável ser mergulhador certificado com experiência em águas abertas e correntes: Malpelo não é adequada para iniciantes ou para quem tem poucas imersões nas costas.
Por que Malpelo permanece um lugar para poucos
O número de visitantes anuais é deliberadamente limitado pelas autoridades colombianas para proteger o ecossistema. Não existe a possibilidade de chegar de forma independente: cada acesso é regulado através de operadores autorizados que obtêm permissões específicas. Essa restrição, que pode parecer um obstáculo, é na verdade o que preserva o valor do lugar. Quem chega a Malpelo o faz com consciência e preparação, e encontra um oceano que teve tempo de permanecer sendo ele mesmo.
Malpelo não oferece comodidades nem distrações. Oferece águas entre as mais produtivas do Pacífico oriental, a possibilidade de nadar perto de centenas de tubarões-martelo e o silêncio de um lugar que a maioria das pessoas nunca alcançará. Para quem busca mergulhos em ambientes remotos e intocados, dificilmente existe uma alternativa comparável nesta parte do mundo.
