À cinco da manhã, quando o céu sobre o Grand Harbour de Malta ainda é de um azul escuro quase negro, os luzzu voltam para a costa. Estas embarcações tradicionais maltesas, pintadas com cores vivas — vermelho, amarelo, azul — e decoradas na proa com o olho de Osíris, deslizam lentamente em direção ao pequeno cais de Birgu, a aldeia medieval que os malteses ainda chamam de Vittoriosa. É aqui que todas as manhãs ao amanhecer acontece um dos mercados de peixe mais pequenos e autênticos do Mediterrâneo.
Não espere barracas organizadas ou placas turísticas. O mercado de Birgu é um punhado de caixas de plástico apoiadas no calçamento de pedra calcária, alguns pescadores com as mãos ainda salgadas, e o cheiro penetrante do mar misturado ao odor de combustível dos motores fora de borda. E ainda assim, é exatamente essa falta de encenação que o torna extraordinário: um canto da vida cotidiana maltesa que resiste, quase imutável, há gerações.
Lampuki, dentici e o ritmo do mar
Os peixes que chegam aqui contam as estações do Mediterrâneo. No outono, o protagonista indiscutível é o lampuki — o peixe capriola em italiano, conhecido em inglês como mahi-mahi — que os pescadores malteses caçam com uma técnica tradicional: posicionam no mar plataformas flutuantes feitas de palmeiras, as kannizzati, sob as quais o peixe se reúne em busca de sombra. Depois chegam os dentici, os garoupas, os salmonetes. Os preços são negociados verbalmente, em maltês, com uma rapidez que deixa desorientados aqueles que não são da região.
As caixas de gelo transbordam de peixes ainda brilhantes, com as escamas que refletem a luz das primeiras lâmpadas acesas no calçadão. Alguém traz também polvos, que são batidos contra a pedra do cais para amaciá-los — um gesto antigo, barulhento, que se ouve antes mesmo de ver a cena. Os gatos do porto, presenças fixas e dignas, aguardam sua parte com uma paciência que parece quase profissional.
Birgu e a sua história militar
O contexto em que se realiza este mercado não é casual. Vittoriosa — o nome foi atribuído à cidade após o Grande Cerco de 1565, quando os Cavaleiros de São João resistiram ao ataque otomano — é uma das Três Cidades que se debruçam sobre o Grande Porto, juntamente com Senglea e Cospicua. O borgo é cercado por bastiões construídos e ampliados pelos Cavaleiros da Ordem de Malta a partir do século XVI, e o Fort Sant'Angelo, que domina a ponta do promontório, tem origens que remontam pelo menos ao período medieval, embora a estrutura atual tenha sido amplamente remodelada pelos Cavaleiros após 1530.
Caminhar pelas ruelas de Birgu antes que a cidade acorde significa atravessar becos com menos de dois metros de largura, ladeados por casas de pedra globigerina — a típica pedra calcária maltese de cor mel — com varandas de madeira pintadas e portas maciças. O mercado se insere nesta paisagem como se não pudesse estar em outro lugar.
Como viver o mercado da maneira certa
O conselho mais importante é um só: chegar cedo. O mercado começa ao amanhecer, por volta das cinco ou seis da manhã, dependendo da estação e das condições do mar, e se esgota em uma hora ou pouco mais. Às sete, muitas vezes, não sobra quase nada. Quem chega às oito encontra o cais vazio e alguns gatos satisfeitos.
Para chegar a Birgu a partir de La Valletta, a opção mais evocativa é o ferry que conecta os dois lados do Grand Harbour: uma travessia de poucos minutos em pequenas embarcações que partem do Valletta Waterfront. Como alternativa, pode-se pegar um ônibus ou um táxi. Uma vez no local, é melhor deixar o carro fora das muralhas: as ruas internas são muito estreitas. Leve uma bolsa térmica se você pretende comprar peixe, e alguns euros em dinheiro — não espere pagamentos digitais.
Um mercado que não é feito para turistas
O que mais impressiona no mercado de Birgu não é a quantidade de peixe ou a variedade das espécies, mas o fato de que não é pensado para ser observado. Os pescadores não posam para fotografias, embora raramente as recusem se pedidas com respeito. As conversas acontecem em maltês, uma língua semítica com influências árabes, românicas e inglesas que soa como nada mais no mundo. Os compradores habituais — idosos do bairro, alguns chefs de restaurantes locais — já sabem o que querem e quanto vão pagar.
Assistir a essa cena sem interferir, talvez com uma xícara de café tomada em um dos bares que abrem muito cedo nas proximidades, é uma maneira honesta de viajar: observar algo real, que existe independentemente da própria presença, e levar para casa a lembrança do sal no ar e do barulho dos motores que se desligam um após o outro, enquanto o céu sobre o porto finalmente se torna laranja.