O cheiro de cominho e madeira de cedro te alcança antes mesmo de ver as barracas. Na medina de Chefchaouen, cidade fundada em 1471 nas encostas do Rif marroquino, os mercados não são um fundo decorativo para as famosas paredes azuis: são o coração pulsante de uma comunidade que comercia com ritmos próprios, marcados pela hora da oração e pela luz da manhã.
Chefchaouen está localizada a cerca de 600 metros de altitude, incrustada entre as montanhas do Rif, a menos de duas horas de ônibus de Tétouan. A medina é relativamente compacta em comparação com outras cidades imperiais marroquinas, o que a torna percorrível a pé de forma aprofundada em um dia inteiro. Mas parar por apenas um dia seria um erro: os mercados mudam de cara entre a manhã e a tarde, e algumas vendedoras aparecem apenas nas horas mais frescas.
Praça Uta el-Hammam: o ponto de partida
Tudo converge para Praça Uta el-Hammam, a praça central da medina, dominada pela Grande Mesquita com seu característico minarete octogonal — uma forma rara no Marrocos do norte, provavelmente de influência andaluza, trazida pelos refugiados muçulmanos expulsos da Espanha no século XV. Ao redor da praça, os cafés ao ar livre convivem com lojas de cerâmica e vendedores de especiarias que dispõem seus produtos em cones coloridos: páprica, ras el hanout, açafrão seco.
As paredes que cercam esta área são efetivamente pintadas em tons de azul que variam do azul claro ao azul cobalto intenso. A tradição da pintura azul é relativamente recente em sua forma atual — consolidou-se ao longo do século XX — mas os becos estreitos e as portas de madeira entalhada contam séculos de arquitetura doméstica berbere e árabe.
Os souks internos: onde se encontram os tecidos do Rif
Aprofundando-se além da praça principal, através de becos que se estreitam até permitir a passagem de uma única pessoa por vez, chega-se aos souks cobertos onde o comércio se torna mais autêntico e menos voltado para o turismo. Aqui encontram-se as cobertas tecidas à mão das montanhas do Rif, feitas com lã local em padrões geométricos brancos e pretos, às vezes com inserções de vermelho ou laranja. Não se trata de produção industrial: cada peça requer dias de trabalho no tear manual, e as dimensões e os desenhos variam de família para família.
Nesses mesmos becos é possível encontrar mulheres berberes que vendem produtos de óleo de argan — cremes, óleos puros, sabonetes — de forma direta, sem intermediários. O argan produzido na região do Rif é menos conhecido do que o da área de Essaouira, mas a presença dessas vendedoras locais muitas vezes garante uma cadeia de suprimentos mais curta e preços mais justos. Perguntar o preço antes de tocar na mercadoria é uma regra não escrita que facilita a relação.
Cores, sons e o ritmo do mercado
Perto das nove da manhã, quando a luz do sol entra obliquamente nos becos e atinge as paredes azuis, os mercados já estão em plena atividade. O som dominante é o das negociações em voz baixa, intercalado pelo martelar dos ferreiros e pelo relinchar dos burros que transportam mercadorias nos becos estreitos demais para qualquer veículo. As cores dos tecidos expostos — verde menta, laranja queimado, roxo — contrastam com o monocromatismo das paredes.
À tarde, tudo muda: o calor faz os ritmos desacelerarem, muitas lojas abaixam as persianas entre 13 e 16 horas, e a medina assume uma atmosfera quase suspensa. É o melhor momento para sentar em um café, pedir um chá de menta e observar o lento retorno da vida comercial no final da tarde.
Dicas práticas para visitar os mercados
O melhor momento para visitar os souks é entre 8h30 e 11h30 da manhã, quando a atividade é máxima e a luz é favorável também para a fotografia. Levar dinheiro em dirhams é indispensável: os cartões de crédito não são aceitos na grande maioria das lojas. Para chegar a Chefchaouen, os ônibus CTM e Supratours conectam regularmente Tétouan, Fès e Casablanca à cidade; a estação de ônibus fica fora da medina, a cerca de 15 minutos a pé da entrada principal.
Evite visitar na manhã de sexta-feira, quando muitas atividades são reduzidas para a oração do meio-dia. Para os tecidos do Rif, um preço orientativo para um cobertor de tamanho médio gira em torno de 150 a 300 dirhams, mas a negociação faz parte do processo e não deve ser vista como um conflito: é uma conversa que muitas vezes termina com um chá oferecido pelo vendedor, independentemente da compra.