O ruído chega antes da imagem: um crepitar surdo, quase um trovão distante, que sobe de baixo enquanto se caminha pelas passarelas metálicas do Mirador Perito Moreno. Então, ao virar a esquina do último mirante, o glaciar aparece em toda a sua plenitude — uma muralha branca e azul alta até 74 metros acima do nível do lago Argentino, que avança lentamente em direção à península de Magalhães. Não é um cartão-postal. É algo que se sente nos ossos.
O Glaciar Perito Moreno se estende por cerca de 250 quilômetros quadrados e é um dos poucos glaciares no mundo considerado em equilíbrio dinâmico, o que significa que não está em retração como a maioria de seus semelhantes. Isso o torna um fenômeno excepcional no contexto da Patagônia argentina, e o sistema de passarelas construído dentro do Parque Nacional Los Glaciares — patrimônio da UNESCO desde 1981 — permite observá-lo de distâncias muito próximas, às vezes a menos de cem metros da parede frontal.
A passarela e o pôr do sol sobre o gelo
O sistema de varandas e passarelas que constitui o Mirador está organizado em vários níveis, descendo ao longo da encosta da colina em direção ao lago. Nas horas centrais do dia, o gelo parece quase branco ofuscante, mas quando o sol começa a descer no horizonte patagônico — e no verão austral, entre novembro e março, isso acontece frequentemente após as 21:00 — a luz muda tudo. As fendas profundas da superfície glacial se tingem de um azul intenso, quase elétrico, enquanto as cristas mais altas capturam os tons dourados e alaranjados do pôr do sol. O contraste é fisicamente surpreendente: o mesmo bloco de gelo parece conter duas cores impossíveis ao mesmo tempo.
É nesses momentos que se entende por que os fotógrafos naturalistas escolhem deliberadamente ficar até o fechamento do parque. A luz rasante exalta cada fenda, cada serac, cada torre de gelo que se projeta da parede vertical. Levar um tripé é recomendado, mas mesmo sem equipamento profissional, as imagens que se obtêm nesta hora são difíceis de replicar em outro lugar.
Como chegar e informações práticas
El Calafate, a cidade mais próxima, está a cerca de 80 quilômetros do glaciar. A estrada é asfaltada e pode ser percorrida em cerca de uma hora. Da cidade partem numerosos transfers organizados, que representam a opção mais confortável para quem não tem um carro alugado. O custo do ingresso ao parque nacional para visitantes estrangeiros gira, aproximadamente, em torno de 5.000-6.000 pesos argentinos, mas o valor está sujeito a variações frequentes relacionadas à inflação local — é sempre útil verificar o preço atualizado antes de partir.
O parque geralmente abre às 8:00 e fecha no final da tarde, com horários que variam ligeiramente dependendo da estação. Para aproveitar o pôr do sol sobre o gelo, é fundamental chegar à tarde e planejar ficar até o horário de fechamento, que na alta temporada de verão pode ser adiado. Evite os feriados argentinos e os finais de semana de julho, quando o fluxo de visitantes locais aumenta consideravelmente.
O que observar no local
Ao caminhar pelas passarelas inferiores, é possível observar o fenômeno do calving: pedaços de gelo que se desprendem da parede frontal e caem no Lago Argentino com um estrondo repentino. Não é possível prever quando isso acontece, mas a frequência é alta — especialmente nas horas mais quentes — e a espera se torna parte da experiência. Muitos visitantes permanecem parados por vinte ou trinta minutos em um ponto fixo, aguardando a próxima ruptura.
Um detalhe que surpreende quase todos na primeira visita é a cor da água do lago Argentino nas proximidades da geleira: um cinza-azulado leitoso, causado pela farinha glacial, ou seja, as partículas finíssimas de rocha trituradas pelo movimento do gelo. Essa cor é visibilíssima também de cima, e cria um contraste nítido com as águas mais escuras do lago aberto.
O momento certo para a visita
A melhor estação é o verão austral, de outubro a abril, quando os dias são longos e o clima mais ameno. No entanto, a Patagônia é conhecida por sua imprevisibilidade meteorológica: ventos fortes, chuva e sol podem alternar-se na mesma tarde. Vestir-se em camadas é indispensável. Usar óculos de sol polarizados ajuda a ver melhor os detalhes do gelo durante as horas de plena luz e protege contra os ofuscamentos intensos que a superfície branca produz em dias ensolarados.
Quem tem a possibilidade de escolher o dia deve ficar de olho nas previsões locais e optar por um dia com nuvens dispersas no final da tarde: as luzes filtradas que resultam ao pôr do sol são frequentemente mais espetaculares do que as de um céu completamente limpo, pois adicionam profundidade e variação cromática à parede de gelo.