Quatro gigantescos Budas dourados se erguem nos corredores escuros do Templo de Ananda, cada um com cerca de nove metros de altura, cada um voltado para um ponto cardeal diferente. Quando a luz filtra pelas aberturas laterais e atinge as superfícies douradas, o efeito é ofuscante: não é uma cenografia calculada, mas uma arquitetura religiosa que usa a luz como instrumento de devoção. Este é o primeiro impacto com um dos templos mais bem preservados de toda a planície de Bagan, na Birmânia central.
O Templo de Ananda foi construído por volta de 1105 d.C. por vontade do rei Kyanzittha, um dos soberanos mais poderosos da dinastia Pagan. Segundo a tradição, oito monges indianos que chegaram à corte do rei descreveram a caverna himalaiana de Nandamula, residência lendária dos santos budistas, e Kyanzittha ordenou que sua forma fosse replicada em pedra. O resultado foi um edifício em cruz grega, com uma torre central que atinge cerca de 51 metros de altura, visível a quilômetros de distância na planície plana que circunda Bagan.
A arquitetura que funde Índia e Mon
O que torna o Templo de Ananda arquitetonicamente extraordinário é sua síntese estilística. O plano em cruz, os corredores concêntricos e a torre shikhara de origem indiana se fundem com elementos da arte Mon, a cultura dominante na Birmânia meridional da época. Os quatro portais de entrada são decorados com terracotas esmaltadas que retratam cenas da vida do Buda: pequenos painéis alinhados com precisão, ainda legíveis após quase mil anos.
Os corredores internos formam um duplo anel em torno do núcleo central. Caminhando ao longo do corredor externo, mais escuro, encontram-se centenas de nichos que abrigam estátuas de pedra retratando episódios do Jataka, as histórias das vidas anteriores do Buda. No corredor interno, mais iluminado, a atmosfera muda: aqui se percebe a monumentalidade das quatro estátuas principais, visíveis através de aberturas na parede. Duas das estátuas originais de Kyanzittha ainda estão presentes — aquelas voltadas para o norte e para o sul — enquanto as outras duas foram destruídas por um incêndio e substituídas em épocas posteriores.
Os quatro Budas e o detalhe das mãos
Um detalhe que vale a pena observar com atenção diz respeito aos dois Budas originais: se nos posicionarmos longe da estátua, o rosto parece sereno e sorridente; ao nos aproximarmos, a expressão parece mudar, assumindo um tom mais austero. Esse efeito óptico, provavelmente intencional, é obtido através da modelagem do rosto e do jogo de sombras. As duas estátuas substitutivas, feitas em épocas mais recentes, não produzem o mesmo efeito.
Cada estátua representa um dos quatro Budas do ciclo cósmico budista: Kakusandha, Konagamana, Kassapa e Gautama. As mãos de cada figura assumem mudras diferentes — gestos rituais com significado preciso. Aquele voltado para o leste, Gautama, é o Buda histórico, e sua estátua é a que recebe mais ofertas dos fiéis locais: flores, folhas de bananeira, bastões de incenso.
Quando visitar e como se mover
O Templo de Ananda está localizado a cerca de três quilômetros do centro de Nyaung-U, a cidade principal da região de Bagan. A maneira mais confortável de chegar lá é de bicicleta elétrica, que pode ser facilmente alugada em Nyaung-U ou na vila de Old Bagan por um valor que gira em torno de 5.000-8.000 kyats por dia (o preço pode variar). Como alternativa, os riquixás e táxis locais estão sempre disponíveis.
O melhor horário para visitar é de manhã cedo, entre 7:00 e 9:00, quando a luz é suave e os grupos organizados ainda não chegaram. O templo geralmente está aberto das 6:00 às 18:00. Todos os anos, durante o mês de Pyatho no calendário birmanês (que geralmente corresponde a dezembro ou janeiro), ocorre ao redor do templo uma grande feira religiosa que atrai milhares de peregrinos de todo o país: uma experiência completamente diferente da visita comum, mais caótica, mas extraordinariamente vibrante. Tirar os sapatos na entrada é obrigatório, como em todos os lugares sagrados birmaneses.
Por que vale a pena uma visita longa
Muitos visitantes de Bagan dedicam ao Templo de Ananda menos de uma hora, atraídos pela quantidade de estruturas presentes na planície — estima-se que existiam originalmente mais de 10.000 templos, dos quais cerca de 3.000 ainda estão de pé. Seria um erro. Os painéis de terracota dos corredores, os detalhes das nichos, as proporções dos espaços internos exigem tempo para serem compreendidos. Pelo menos duas horas permitem observar com calma tanto o exterior — com suas camadas de terraços brancos — quanto o interior, onde a arquitetura trabalha com a luz de tal forma que nenhuma fotografia consegue realmente capturar.