
## A primeira vez que entrei no Maracanã

Era uma quinta-feira sem jogo. Dia de visitação. Cheguei pela Rua Professor Eurico Rabelo, do metrô Maracanã, por volta das 10h20 — cedo o suficiente pra evitar o grupo de turistas alemães que, garantem os guias locais, sempre chega entre 11h e meio-dia. O sol batia de frente. O concreto esbranquiçado da estrutura dos anos 1950 refletia uma luz que quase dói nos olhos.
E a sensação foi estranha. Não foi aquele arrepio épico que esperava. Foi mais como chegar num teatro vazio: você percebe a escala, o silêncio, a possibilidade do barulho que aquilo já foi. Só depois, dentro, olhando a descida suave das arquibancadas em direção ao gramado, é que alguma coisa se encaixou.
## O que o Maracanã é, de verdade
O nome oficial é Estádio Jornalista Mário Filho — homenagem ao jornalista que, dizem, foi o maior responsável por transformar o futebol brasileiro em fenômeno cultural. Mas ninguém chama assim. Todo mundo fala Maracanã, ou simplesmente Maraca, com um carinho possessivo que só os cariocas conseguem ter por uma estrutura de concreto armado.
Foi inaugurado em 1950 para a Copa do Mundo. A prefeitura do então Distrito Federal ergueu aquele monstro arquitetônico em tempo recorde — e quando digo monstro, é com admiração. A capacidade original era de 155 mil pessoas. Cento e cinquenta e cinco mil. Isso fez o Maracanã superar o Hampden Park de Glasgow e virar o maior estádio do mundo naquela época. Pra se ter dimensão: hoje a capacidade é de pouco mais de 78 mil lugares, depois das reformas para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Ou seja, o Maracanã contemporâneo comporta literalmente metade do Maracanã original.
Isso não é detalhe menor. É uma escolha que ainda divide opiniões no Rio.
## O que os cariocas realmente pensam
Depende muito de com quem você conversa. Os mais velhos — especialmente os flamenguistas e vascaínos de origem da Zona Norte — carregam uma relação quase física com o estádio antigo. Falam das arquibancadas gerais como se fosse um lugar sagrado democrático, onde ricos e pobres se misturavam no suor e no grito. A demolição das gerais, na reforma de 2010-2013, foi um trauma que muita gente ainda não processou completamente.
Já a geração mais jovem tende a aceitar o estádio novo sem muita nostalgia. O conforto melhorou, o banheiro funciona (acho que sim, pelo menos na maioria das vezes — melhor ir cedo), a visão do campo ficou mais uniforme. Reclamam do preço dos ingressos, claro, que colocou muita gente da Zona Norte fora das arquibancadas.
Pena que essa é a contradição central do lugar: um estádio que foi construído para ser do povo e foi se tornando progressivamente menos acessível a ele.
## A visita sem jogo: o que fazer
O tour oficial (R$ 40,00 para adultos, R$ 20,00 para meia-entrada em 2024 — confirme valores antes porque mudam com certa frequência) dura em torno de uma hora e meia. Você passa pelo túnel dos jogadores, chega ao gramado, visita o Museu do Futebol do Maracanã. Esse museu, que fica dentro do complexo, é menos conhecido do que o Museu do Futebol de São Paulo (no Pacaembu), mas tem coisas genuinamente interessantes: chuteiras históricas, camisas de Pelé, Zico, Garrincha, registros fotográficos da Tragédia do Maracanã em 1950.
Ah, a Tragédia. Vale parar aqui um momento.
Em 16 de julho de 1950, o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai naquele mesmo campo, com cerca de 200 mil pessoas presentes (o número exato é disputado até hoje). O jornalista Nelson Rodrigues chamou de "a maior tragédia da história contemporânea". Exagero literário? Talvez. Mas quem já viu um brasileiro mais velho esmorecer ao mencionar o Maracanazinho de 1950 entende que há algo de real naquela ferida.
Existe uma placa no estádio marcando o local onde Ghiggia, o jogador uruguaio, chutou o gol decisivo. As pessoas tiram foto ali com expressões que variam entre o humor e o luto genuíno.
## Onde os cariocas vão antes e depois do jogo
Se você vai a um jogo — e deveria, pelo menos uma vez — o ritual carioca começa bem antes da entrada. O Largo do Estácio e os arredores da Rua São Francisco Xavier concentram botecos e lanchonetes que ficam lotados nas três horas que precedem qualquer clássico. Cerveja gelada a R$ 6,00 a lata em alguns lugares (mas o preço varia absurdamente dependendo da torcida que estiver chegando naquele dia — ouvi relatos de R$ 12,00 em clássico Fla-Flu).
Depois do jogo, a dispersão vai em direção à Praça Saens Peña ou ao Méier, onde restaurantes populares ficam abertos tarde. Não existe jantar pós-jogo sofisticado no bairro do Maracanã — e soa estranho imaginar que devesse existir.
Alguns torcedores locais que entrevistei ao longo dos anos mencionam um bar cujo nome nunca consigo anotar direito, numa viela que desemboca quase na lateral do estádio, onde frequentadores históricos do Maracanã se reúnem após os jogos grandes. Tentei encontrar uma vez, não consegui. (Se você achar, me conta.)
## Arquitetura: o que poucos param pra ver
O Maracanã tem uma qualidade arquitetônica que fica escondida sob todo o peso simbólico do lugar. O projeto original foi desenvolvido por uma equipe de arquitetos que incluía Miguel Feldman, Paulo Tapajós, Waldir Ramos, Antônio Dias Carneiro e Oscar Valdetaro — com influências claras do modernismo que fervilhava no Rio naquele período.
A marquise em balanço, que cobria as arquibancadas sem colunas interrompendo a visão do campo, era uma solução de engenharia notável para a época. O formato elíptico, as rampas de acesso. Tudo pensado para um fluxo de 150 mil pessoas — o que, por si só, exige uma inteligência espacial que não se vê à primeira vista.
As reformas sucessivas (especialmente a de 2010-2013) apagaram boa parte dessa arquitetura original. A cobertura nova é funcional, os materiais são contemporâneos, mas a alma brutalista-tropical do projeto original foi parcialmente perdida. Pra ser sincera, isso me incomoda mais do que deveria incomodar uma visitante que nunca conheceu o original.
## O que evitar
Evite os arredores imediatos do estádio nos horários de saída de jogos grandes sem ter planejado sua rota de saída. O Maracanã tem uma capacidade de criar caos viário que é impressionante mesmo pra quem conhece São Paulo. O metrô (Linha 2-Verde, estação Maracanã) é a saída mais segura e eficiente, mas nas noites de clássico você vai esperar na fila por um tempo que não consigo precisar com honestidade — vi relatos de 40 minutos, vi relatos de 15. Depende do jogo e da noite.
Evite também os vendedores de "ingressos" nas imediações sem verificar a procedência. A revenda pirata ainda existe, os problemas ainda acontecem.
E, por fim: evite ir ao Maracanã esperando uma revelação turística imediata. O estádio não entrega sua grandeza de primeira. Ela chega devagar, na medida em que você vai entendendo o que aquilo representa pra uma cidade inteira — e pra um país que construiu parte da sua identidade coletiva em torno de um esporte.
## Uma última coisa
No tour, em algum momento você vai estar parado no gramado, olhando para cima, vendo as arquibancadas vazias em curva ao seu redor. O guia vai dizer alguma coisa sobre capacidade e recordes. Alguém do grupo vai tirar foto.
E você vai pensar, inevitavelmente: como é que 200 mil pessoas couberam aqui?
Essa pergunta, sozinha, já vale a visita.
*Maracanã — Rua Professor Eurico Rabelo, s/n, Maracanã, Rio de Janeiro. Metrô Maracanã (Linha 2-Verde). Tours diários (consulte horários no site oficial, pois variam por temporada de jogos). Ingressos a partir de R$ 40,00.*
